segunda-feira, 15 de julho de 2013

Free School 11 - um monte de pergunta

(ou: FAQ 3 a 7!)

Em meio a um monte de conversas sobre a Free School, várias perguntas foram aparecendo. Vou tentar falar de todas um pouquinho. Se tiverem mais... os comentários tão aí pra isso!

Vamos lá:

~ Eles podem chegar atrasados na escola? Até isso é livre?

Pelo que eu percebi lá, sim. Não perguntei sobre isso especificamente, mas não pareceu ser uma questão. A escola abre às 7h30, e tem café da manhã até umas 8h30; as primeiras atividades do dia (sejam aulas, reunião de atividade, continuação de assembleia ou saída para excursão) são marcadas para 9h. Então já tem uma flexibilidade grande da hora de chegada. Mesmo assim, algumas crianças chegam mais tarde, e tudo bem. A Carol, de 11 anos, me contou que a irmã mais velha dela, que também estuda na escola, sempre demora pra se arrumar e atrasa, e a Carol não gosta. Ela disse que chegar na escola às 8h30 é tarde para ela, que ela gosta de chegar cedo, tomar café com as pessoas, ir começando o dia com calma. Mas vários dias vi crianças chegando bem mais tarde; os professores faziam alguma brincadeira, geralmente no estilo "caiu da cama hoje?", mas não tem nenhuma punição ou equivalente por causa disso.

~ Se uma única criança tem interesse por um assunto, são feitos esforços para que se arranje um professor ou palestrante, ou eles exigem um número mínimo de crianças interessadas para irem atrás?

Não tem nenhuma exigência de número de crianças para que sejam oferecidas aulas e atividades. Se uma criança tiver interesse em, sei lá, xadrez, e tiver um professor que saiba jogar, eles podem combinar, só os dois, de jogarem. Se não tiver nenhum professor que saiba jogar, mas alguém conhecer alguém que saiba, o professor pode ajudar a criança a ir atrás. Ou a criança pode perguntar para outras crianças também, ou até pessoas de fora. A ideia é que as crianças também são responsáveis pelo seu aprendizado, então não tem limite mínimo para matrícula, ou tema que não valha a pena ser apresentado. A Jess, de 8 anos, começou um clube de RPG e ia tentando convencer adeptos a cada dia. Uma vez eu participei com ela, em outros dias outras crianças se juntaram, às vezes ela ficou frustrada porque ninguém queria ou podia participar... Não existe uma fórmula pronta.

~ E como elas se portam na universidade, onde nem tudo é free! Como faz? Como é a adaptação a um mundo não muito livre?

Essa pergunta tem muitas respostas, e muitos exemplos. Mais objetivamente: elas se portam bem! Nos últimos anos, um dos professores acompanhou como as crianças que saíam da Free School iam na escola pública, e a maioria (9 de 12, mais ou menos) estavam no "Honor Hall", uma lista que tem nas escolas dos EUA das crianças que tiram as maiores notas da escola. Várias vão para a universidade, mas como me disse um ex-aluno: ir para a universidade é uma das várias opções que existem. Não é o único caminho, e eles sabem disso. Uma mãe me contou que quando a filha dela saiu da Free School, não quis ir para a escola pública. A própria menina então começou a pesquisar escolas, marcou visitas e entrevistas, e os pais só ajudaram na logística. A escola então entrevistava a menina, e depois iam falar com a mãe: "por que você quer que sua filha estude aqui?" A mãe só podia responder que ela não queria, que a decisão era da filha. Que a menina tinha escolhido, pesquisado, e que o interesse era dela. A reação das escolas, segundo a mãe, era de surpresa. Adoravam, porque é o "tipo de aluno que as escolas querem": com autonomia, responsabilidade, interessado em aprender, motivado... e é justamente o oposto de tudo que é feito nas escolas tradicionais. Eu acho (e, em parte, quero achar também) que a experiência em uma escola alternativa prepara (se é que é possível essa preparação...) muito mais para o mundo, livre ou não livre, do que uma escola tradicional.

~ O quanto ainda é possível realizar experiências de liberdade dentro de uma sala de aula onde os alunos nunca passaram por isso? Pergunto isso pensando exatamente nos meus alunos da educação profissional. Me parece um tanto tranquilo que as crianças da experiência free se adaptem ao sistema tutelado da maior parte das instituições (eu mesma vivi um pouco disso), mas como fazer o caminho inverso depois de tanto tempo de um processo educativo amarrado?

Pois é, também não sei. Acho que é tentando, fazendo. Vivi um pouco disso também no semestre que fiz estágio docência e dei aula na UnB. O retorno dos alunos foi de que era difícil, de repente, dar a opinião deles, fazer alguma crítica, escolher as coisas. Que eles nunca tinham vivido isso, era sempre fazer um resumo do que os autores diziam, ir pra aula, fingir interesse etc. O que eu e a Regina tentamos fazer foi questionar o tempo todo. Estávamos falando de transformações na escola, lemos Paulo Freire e cia, e sempre conversávamos sobre as nossas responsabilidades de tentar fazer essas transformações na prática, indo ali pra aula sem controle de chamada, sendo também ativo na própria matéria. Eu acho que isso ajudou um pouco, pelo menos tirava as pessoas da zona de conforto. Mas foi um desafio pra gente também.

~ Nath, quando você vai abrir a sua escola maravilhosa? (Queria que os filhos que eu espero ter estudassem lá)

Ê! Matrículas garantidas! :) Eu quero sim abrir uma escola, em breve... Estou juntando os cúmplices por enquanto, né? Que sonho que se sonha só é só sonho...



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