Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Free School

Free School 11 - um monte de pergunta

(ou: FAQ 3 a 7!) Em meio a um monte de conversas sobre a Free School, várias perguntas foram aparecendo. Vou tentar falar de todas um pouquinho. Se tiverem mais... os comentários tão aí pra isso! Vamos lá: ~ Eles podem chegar atrasados na escola? Até isso é livre? Pelo que eu percebi lá, sim. Não perguntei sobre isso especificamente, mas não pareceu ser uma questão. A escola abre às 7h30, e tem café da manhã até umas 8h30; as primeiras atividades do dia (sejam aulas, reunião de atividade, continuação de assembleia ou saída para excursão) são marcadas para 9h. Então já tem uma flexibilidade grande da hora de chegada. Mesmo assim, algumas crianças chegam mais tarde, e tudo bem. A Carol, de 11 anos, me contou que a irmã mais velha dela, que também estuda na escola, sempre demora pra se arrumar e atrasa, e a Carol não gosta. Ela disse que chegar na escola às 8h30 é tarde para ela, que ela gosta de chegar cedo, tomar café com as pessoas, ir começando o dia com calma. Mas vários dias...

Free School 10 - o nada

Eu sempre fui grande defensora do direito de não se fazer nada na escola. Espalho aos quatro ventos como acho importante que as crianças tenham tempo e espaço de respirar, de olhar pela janela, de ficar à toa. Fiquei muito surpresa, então, quando saí da Free School na primeira visita com um incômodo que não sabia bem explicar, mas que tinha a ver com um suposto limite, que eu achava que deveria ter visto, entre a liberdade e o desleixo, o descaso. Na sexta à tarde, o clima na escola era de... nada. Umas crianças sentadas/deitadas no sofá; alguns tinham ido para um parque perto, deixando o espaço mais vazio que de costume. Outros "meio" desenhando, meio só ali, olhando. Nem tinha muita conversa na hora. Não vi os professores, e não senti ninguém engajado, interessado. E foi isso que me incomodou. Eles não deveriam estar matando a curiosidade inata de cada criança? Não deveriam estar concentrados em alguma coisa (um jogo, um videogame, qualquer coisa )? Logo deu a hora da...

Free School 9 - turmas e horários

A questão das turmas é: Então as "turmas" são separadas por idade? Por vontade de aprender? Elas são separadas por idade, sim; a diferença é que essa separação não é muito rígida. Cada turma na verdade tem duas "séries", com crianças mais ou menos na mesma faixa etária. Começa na pré-escola, com crianças de 3 e 4 anos, e vai assim até o ensino fundamental 2 (7o e 8o anos, com adolescentes de 12 a 14 anos). A única série que fica sozinha (esse ano letivo, por causa do número de alunos) é a 4a. Vou colocar o exemplo do horário do grupo do 7o e 8o anos, para explicar melhor como funciona essa divisão: Segunda 9h-9h30: Reunião de atividades {A escola toda participa, e é obrigatória. Nesse dia eles repassam os horários da semana, relatam atividades especiais, começam a semana} 10h-11h: Reunião da turma {O grupo de duas turmas, que têm a mesma sala base (homeroom) e um professor, se encontram para conversar também. Nessa hora, cada turma está em sua sala, com seu...

Free School - FAQ 2

Nossa sessão de perguntas e respostas está ganhando muitos adeptos! Não param de chegar emails, cartas e mensagens com dúvidas e comentários sobre a Free School. Tá, mentirinha. Mas chegou uma nova pergunta, e quem quiser pode perguntar mais também. A pergunta do dia é: "Nath, e avaliações? Como se avalia se a criança assimilou o conteúdo adequado para idade dela? (Tipo, tem idade para aprender a ler? Aprender a fazer conta?)" Responder essa pergunta não é muito fácil; eu poderia só falar: não tem avaliação, nem prova, nem nota. Mas acho que é preciso entender o motivo disso, e como isso representa uma outra forma de encarar a educação. As escolas alternativas e/ou democráticas, como a Free School, não partem do pressuposto de que existe uma idade certa pra aprender um conteúdo; elas partem do interesse das crianças, e acreditam que elas podem tomar as decisões sobre a própria educação. É uma mudança grande de postura, porque exige que o professor confie nos educando...

Free School - FAQ

Uma sessão nova no meio do relato, respondendo dúvidas! :) Adorei. Um amigo meu perguntou sobre quando a assembleia não resolve: "Eu também fiquei me perguntando (num post lá atrás.. quando vc mencionou o tdah) como eles resolveriam conflitos e comportamentos abusivos.. vi que tem a assembleia, mas ainda fiquei na dúvida como eles realmente implementam e se não conseguem resolver isso na assembleia. O que rola? Conversinha, castigo, notinha na agenda, reunião com os pais, piscopedagogo, expulsão?" Pelo que entendi, a assembleia é a última instância, último caso, último recurso quando nada mais funciona. A primeira coisa que tem é a regra do stop, que eles prezam bastante; tem também o "declared boundaries", os limites declarados. Às vezes alguém faz alguma brincadeira que a outra pessoa não gosta, mas o brincador não sabia que incomodaria, então a pessoa deixa claro o limite: "não gosto de ser chamada de blablabla", "não gosto quando você faz is...

Free School 8 - pra não dizer que não falei das não-flores

O meu segundo dia na Free School foi de conversas bem marcantes, e um incômodo no final que me colocou pra pensar, muito. Sobre esse incômodo específico eu vou falar em um outro post, mas vamos às conversas: Logo que cheguei, na sexta-feira, uma menina (Rowe, de uns 7 anos), que tinha conversado um pouco comigo no primeiro dia, começou a puxar assunto. Me contou do irmão mais velho dela, que pode correr por muitos e muitos quilômetros sem cansar, e de como a irmãzinha mais nova não deixa ela fazer mais nada. E aí ela me falou que queria sair da Free School, que às vezes ela não se sentia confortável lá. Eu perguntei por quê, e ela me contou mais ou menos assim: "Ah, às vezes as pessoas da minha sala implicam comigo porque eu faço alguma coisa errada, mesmo que seja sem querer. Eu não gosto. E também porque os professores aqui não me deixam dar as cambalhotas que quero {nota: ela queria dar uns saltos duplos twist carpados ou coisa do tipo, pelo que ela me explicou, mas eu não ...

Free School 7 - comida

A inspiração tirou umas férias, e não me convidou. Mas agora parece estar de volta, então vou aproveitar e começar a terminar de contar sobre a Free School. Pra começar bem, vamos falar de comida. No email confirmando minha visita, o Bhawin já me falou que eles ofereciam almoço e café da manhã para os visitantes, e que as refeições eram um dos destaques da escola. Não me levem a mal, mas em todas as escolas que trabalhei, as refeições eram um dos momentos menos esperados do dia. Hora do almoço significava todas as crianças, com fome e com pressa, arrumando seus lugares na mesa, ou na fila para serem servidos; significava muita comida no chão, recusa em comer o que tinha (tanto faz se era a comida que a escola dava, ou que os pais mandavam), negociação das professoras para comer só mais um pouquinho e muitos lembretes de que quem não come tudo não ganha sobremesa (na escola montessori não). Significava também ser um pouco ninja e anotar o que cada criança comeu, e quanto, além da tr...

Free School 6 - projetos

Quem anda pela Free School pode duvidar que ali funciona uma escola, ainda mais se a sua visão de escola for aquela bem antiga. Não tem salas todas iguaizinhas, não tem sinal, não tem recreio, não tem um currículo igual pra todo mundo, não tem turmas separadinhas, não tem nota nem prova. Tem crianças dando cambalhotas, outras tocando violão e outras lendo um livro, tão concentradas que se tem a sensação de que elas estão mesmo em outro mundo. Crianças de várias idades entram e saem do parquinho, a hora que querem. Algumas sobem para ajudar a fazer o almoço, uma mais velha pode ir ler um livro para os mais novos. A escola não pára. E tem alguns projetos, ou eventos, que ajudam essa movimentação toda: * Field trips As excursões são parte importante da escola, e todo ano as turmas escolhem um lugar pra ir. A organização fica toda por conta das crianças: elas decidem onde querem ir, pesquisam sobre o lugar, calculam os gastos, pensam em formas de arrecadar dinheiro, entram em contato ...

Free School 5 - Assembleia

Agora sim, a Assembleia. Logo depois do almoço, na quinta-feira, estava conversando com uma professora quando o Bhawin me falou que alguém tinha chamado uma assembleia, e que se eu quisesse poderia ir lá ver. Desci na mesma hora, pensando na sorte de ter uma bem no dia que eu estava lá. A assembleia é a instância maior da escola, onde as coisas são decididas e os problemas resolvidos. A participação é obrigatória, porque o que é decidido na assembleia geralmente impacta toda a comunidade. Qualquer pessoa pode chamar uma assembleia a qualquer momento, para tratar de assuntos que dizem respeito a todos. Nesse dia, uma menina da 6a série (vamos chamar ela de Ana) chamou a assembleia porque um menino (John) da mesma idade estava batendo nela repetidamente, todos os dias. No dia em questão ele bateu e empurrou ela enquanto ela e outros amigos estavam sentados nos sofás; ela disse que os amigos estavam agitados, brincando, e nem perceberam o que aconteceu. Ela chamou a assembleia porqu...

Free School 4 - um dia na escola

(sei que prometi falar da assembleia, e até comecei um post com ela. Mas a inspiração me carregou pra outros lados, e aí fui junto). Logo que cheguei e subi as escadas, fui falar com dois professores que estavam em pé, encostados nos cubbies das crianças. Olhei ao redor: era um espaço bem amplo, com mesas espalhadas. Uma mesa maior servia de buffet, e algumas crianças e adultos tomavam café da manhã: torrada, ovo mexido, frutas, leite. Me apresentei e falei que tinha mandado um email pro Bhawin, e que ia fazer uma visita. "Ah, o Bhawin vai chegar mais tarde hoje. Peraí, coloca suas coisas ali em cima que eu te mostro a escola.", me disse um outro professor, o Asyah. E entre escadas, portas e salas, fui descobrindo o que era a Free School. "Aqui é mais ou menos a sala de ciências, e também do 2o e 3o anos. A gente faz atividade de matemática também. Tá vendo esse papelão em cima da mesa, com a raposa desenhada? É pro fundraising, a gente vai fazer uma noite de film...

Free School 3 - como funciona?

Pra explicar um pouco a escola, vou contar do começo: de como os pais matriculam os filhos, como é o começo do ano letivo, quais são as regras da escola, essas coisas. Se preparem pra muitos parênteses, talvez alguns desvios e grandes chances de muitas perguntas a serem respondidas em outros posts. Se você tiver interesse na Free School, vai preencher um formulário pra entrar na lista de espera deles. As crianças podem começar a partir dos 3 anos, e a escola vai até os 14 (Junior High, antes do Ensino Médio). Quando tiver uma vaga na turma que você quer {depois eu explico sobre essa história das turmas !}, eles entram em contato. Você e seu filho vão então na escola, conhecer e conversar com os professores. Se continuarem interessados, seu filho vai ter um tempo de experiência, antes da matrícula: 3 dias para as crianças da pré-escola, e 5 dias para todos os outros. Se depois desses dias, você E seu filho ainda quiserem a escola, matrícula feita e a conversa sobre quanto você pode p...

Free School 2 - não-ritalina

Uma das minhas maiores curiosidades sobre a Free School era essa questão da "não-ritalina". Como era levantar essa bandeira em meio à crescente medicalização das crianças? (esse texto da Eliane Brum explica muito bem a questão). Quando eu cheguei na escola, na quinta de manhã, o professor que tinha respondido meu email (o Bhawin), não estava ainda. Mas na primeira conversa que tive com ele, perguntei: e aí? E o TDAH? E a ritalina (ou, no caso, a não-ritalina)? Como é isso com os pais, com as crianças? E, bom. A escola não tem mais a regra da "não-ritalina". Ele disse que isso não estava funcionando com os pais, e nem com as crianças. Que gerava mais ansiedade, e virou uma pressão, uma obrigatoriedade. Eles decidiram então tentar uma outra abordagem: quando chega alguma criança diagnosticada, em outra escola, com TDAH, eles conversam com os pais, explicam como eles enxergam a questão (que está relacionada a vários outros fatores, como alimentação, estímulo e o p...

Free School 1 - histórias

Bom, pra começar, um pouco de histórias: a história de como eu cheguei até a Free School, e a história de como a Free School chegou onde ela está. A escola fica na cidade de Albany, NY, e existe desde 1969. Começou como homeschooling, quando o filho de sua fundadora, Mary Leue, pediu para a mãe que o ensinasse em casa, porque não gostava mesmo da escola onde estava. Logo, alguns amigos do filho se juntaram; depois, mais outros; e assim começou a Free School (tem mais história no site deles, aqui - em inglês). A escola funciona em um casarão perto do centro de Albany, na região considerada com maior diversidade econômica e racial da cidade. Deu pra perceber isso na visita, porque a segregação fica bem clara nos pontos da cidade. Mary Leue escolheu essa localização porque achava essa diversidade importante, e para garantir isso fez um sistema de mensalidade flexível, que vai de acordo com a possibilidade de cada família pagar. Também comprou imóveis na região para alugar e ter outra...

Free School - começando

Passei dois dias conhecendo uma escola livre. Achei que ia sair de lá encantanda e apaixonada, mas acho que experiências intensas vão além de um simples encantamento. Saí mexida, borbulhando. Infinitas perguntas, vontades, ideias, inspirações. Coisas que adorei, coisas que não sei ainda o que achei, coisas que estranhei, coisas que surpreenderam. De verdade, achei bem melhor do que sair só encantada e apaixonada. É inquietante! Comecei a escrever sobre a visita, e ou ficava tudo muito embaralhado, ou eram apenas palavras soltas pra não esquecer algum tema. Então, seguindo o pedido de um amigo, e essa dificuldade de sistematizar, vou aproveitar esse espaço do blog, pra compartilhar o que foram esses dois dias de visita. Preparem a pipoca e vamos lá. (continua aqui )