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Mostrando postagens com o rótulo crianças

pensando alto

era com carla bruni que eles dormiam depois do almoço. todo dia, todo dia a carla bruni, o mesmo cd, as mesmas músicas. as mesmas doze crianças nos seus colchonetes, rendidas ao sono - algumas depois de uma luta, outras já felizes na entrega. as mesmas músicas, e nós três professoras ali do lado. indo e voltando do almoço, arrumando o caos da sala depois de uma manhã ocupada. preenchendo os relatórios do dia, "o fulano comeu arroz e feijão hoje?". enchendo bacias de água pra brincadeira da tarde, porque tá muito quente hoje, acho que eles vão gostar de brincar com água, né? respondendo emails dos pais, das reuniões, lembrando da roupa de uma que sujou de tinta e está em algum canto da sala agora, tem que colocar na mochila. cortando frutas, pensando se a fiona, nossa linda peixinha, comeu muito hoje, lembrando de algum impasse do parquinho e se ajudamos a resolver de um jeito legal. a carla bruni, insistente, até a hora de abrir a cortina e ir acordando os sonolentos. ten...

Pockets

Logo que cheguei aqui fui visitar a escola que eu trabalhava antes (fui de surpresa, sem contar pra ninguém que eu sequer estava aqui em Ithaca; mas isso é outra história!). Passei um dia na minha (ex)sala, Hickory, com as crianças de um ano e meio a três anos (os toddlers). Nesse dia, a mãe de uma das crianças foi lá para conversar com eles sobre pássaros. Ela é professora de Ciências em uma das escolas aqui, e foi compartilhar um pouco com os amigos do filho. Levou coruja empalhada, conjuntos de penas de diferentes tamanhos e cores, um livro que fazia o som de vários pássaros... As crianças estavam interessadas e envolvidas, principalmente com os sons que o livro fazia. "Oh!", eles diziam, com o dedo levantado, prestando atenção. De repente (não mais que de repente), um menino de 2 anos levanta e fala, com a empolgação de quem fez A descoberta do século: "I have pockets!!!" {pausa para uma Nathália rindo muito e adorando aquilo} Essa cena mostra bem...

da novidade

dia desses, lendo um livro mto bom da Mayumi Lima, encontrei esse trecho aqui, que me arrepiou: "a liberdade da criança é a nossa insegurança. o medo maior é do desconhecido, do novo que pode surgir na ação das crianças e que pode colocar-nos diante da necessidade de nos repensarmos como profissionais, enquanto pessoas que dominam o saber e, portanto, o poder.” isso acontece todo dia. o medo de deixar as crianças escolherem, optarem. medo de deixar elas pintarem o céu de roxo ou a árvore de azul. medo delas trilharem caminhos que não foram aqueles que nós, adultos sabidos, preparamos pra elas. medo delas escolherem outras coisas que não pensamos e, escolhendo, nos fazer olhar pra nós mesmos, questionando nossas certezas e planos. os adultos não querem ver a novidade que cada criança traz - porque mesmo com todas as expectativas, promessas e intenções, a criança sempre rompe tudo isso, trazendo a novidade de ser única. esse caleidóscopio infinito , que nos coloca frente a f...

Da razão

Estavam lá, voltando de alguma aula, as meninas da turma. Nina e Maria conversam sobre algum assunto, e Nina fala: "é, Maria, você tem razão." A Maria na mesma hora rebate, quase chorando: "Não, eu não tenho razão! Eu não quero ter isso!!!" Clara, que tava do lado, percebe logo que se trata de alguma coisa muito ruim, e se junta ao coro: "Eu também não tenho isso, não quero ter isso de razão!" A gente meio que ri, meio que se surpreende, meio que segue com o resto da turma pra ninguém se perder no caminho. Aí a gente chega na sala, muda de assunto, lava as mãos pra comer frutinha, e a Clara vem falar pra Maria, debochada: "Você tem razão-ão...!" ~ E né. Que bom seria não querer ter isso, não. Razão? Eca. Passo, obrigada. Longe de mim querer ter razão. Longe de mim pensar em ter esse negócio aí. Eu sempre fico me perguntando, quando eu to com as crianças, que horas que se quebra essa sabedoria. Eu sei, eu sei que não dá pra gente m...

Conflitos

Uma das reações mais comuns quando duas crianças tem algum conflito é o adulto soltar um "pede desculpas!" logo de cara. A criança vai, olha pro teto, fala "desculpa" como quem mata um mosquito sem ver e pronto, a vida segue seu rumo. Mas aí tem uma coisa que acaba acontecendo que eu não gosto muito - a desculpa vira automática, e álibi perfeito pra tudo. Tá lá o menino andando, empurra o outro de implicância; o empurrado chora, reclama; o empurrão olha pra professora e fala logo um "Desculpa!", enquanto continua andando e empurra o próximo. Pois bem. Comigo não, tenho outra tática. A ideia não é minha, claro. Vi outras professoras fazendo, e funcionando, e acho que vem da dona Maria Montessori (pausa pro suspiro de fã). Vou contar um caso que aconteceu ano passado, que ilustra bem o exemplo. Duas meninas brigam por algum motivo. Uma delas sai de braços cruzados, cara fechada, passos largos e rápidos, furiosa indo embora do parquinho. A outra vem a...

A insuportabilidade do ser

Tem uma amiga minha, a Carol, que dá tilt quando tem alguma coisa muito fofa, linda, gostosa por perto. Sabe, quando uma criança faz questão de fazer uma gracinha tão tão bonitinha e esperta que dá vontade de apertar e esmagar? Então. Quando tem uma situação delas, a Carol descreve como insuportável. É tão incrível, que você não consegue aguentar. Que você precisa morder. Apertar a bochecha, o braço, abraçar forte e falar "aaaah, não!" É assim que é ser insuportável. Pois aí que outro dia, na conversa via skype que contei , com o Kii, tive um belo exemplo dessa insuportabilidade toda. Lá está ele, na frente do computador, com 8 anos, falando comigo. A mãe dele é uma grande amiga lá de Ithaca, e eu e ele éramos bem próximo; eu ia pra casa dele e a gente desenhava junto, brincava, jantava, era uma farra só. E tem mais de dois anos que não vejo ele, morro de saudade. Mas voltando à história. Tava ele lá, mostrando a janelinha do dente caído e contando que gosta sim da es...

tento, tento

eu bem que tento, mas o blog sempre acaba às moscas. sinal disso é que hoje fui entrar aqui e o endereço nem tava no histórico de sites visitados - que eu nunca apago, então nem dá pra disfarçar dizendo que "nah, apaguei tudo hoje, tá zerado". shame on me. a grande novidade do momento é que temos agora novos "personagens" de histórias fofas e engraçadas (e umas nem tanto)! temos, por exemplo, um menininho muito fofo que pede "com licencinha, por favor!" pra sentar no lugar que ele quer na roda, e que também se refere ao estado de salvador como "a minha Bahia"; temos uma menina com cara de americana que dança o rebolation, e uma nigeriana que sabe a coreografia de high school musical inteira. tem também uma que faaaala pelos cotovelos (além de mim), e conversa até com a pia do banheiro - "oi, piazinha, vamos lavar a mãozinha?" e também pergunta "onde estão os meus lindos pôneis?". temos um, do maranhão, que fala "stop...

propósito

"e não me obrigues a ler os livros que ainda não adivinhei nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida" pra mim iso resume - traduz, melhor dizendo - tudo que eu quero, busco e acredito como professora, educadora. como testemunha diária da forma que cada criança aprende, se torna ela mesma e floresce, de verdade, quando a gente não só deixa, mas também apoia, anima. ver isso acontecendo aos poucos, fazer parte desse crescimento, dessas mudanças, é das melhores coisas nessa vida. (agora explica melhor a falta que faz?)

Canção de ninar

Eu já cansei de receber aqueles emails super espertos reclamando que, no Brasil, nossas canções de ninar são todas para colocar medo nas crianças. Porque uma fala que "a cuca vai pegar", a outra fala do boi-da-cara-preta, e que os pais vão deixar a criança sozinha, e... E lá vai o email discorrer sobre os males que isso causa na infância, na sociedade, na cultura e na política etc etc. Pois bem. Vamos ver aqui nos eua, então. Uma das músicas de ninar mais conhecidas fala que vai colocar o berço do bebê no topo de uma árvore, que depois vai balançar e cair com bebê e tudo - nada agradável ou seguro, convenhamos. Mas tem uma ainda mais assustadora: "Hush, little baby, don't say a word. Mama's gonna buy you a mockingbird And if that mockingbird won't sing, Mama's gonna buy you a diamond ring..." (a mãe continua comprando tudo caso a compra anterior não funcione) Quer dizer... perto disso, quem tem medo do boi da cara preta?

Não basta ser tia...

Coisas que eu aprendi hoje passando o dia com a Camilinha: - sempre que você for para um lugar que tenha qualquer atividade envolvendo pintura, leve jornais ou papéis velhos para cobrir seu carro - assim você pode carregar a obra prima com segurança; - nunca tente equilibrar uma abóbora num prato, não importa quão pequena e inofensiva ela possa parecer. Se a abóbora estiver cheia de tinta... bom, você deveria ter pensado em levar um tupperware pra festa; - os muffins servidos nos lugares nunca são os muffins certos; - poucas coisas na vida são tão interessantes quanto glitter e purpurina; - a exceção para a regra acima é um pula-pula - óbvio ; - um abraço é tanta coisa que só cabe dentro mesmo de um abraço , e é a melhor forma pra encerrar qualquer dia! Camila muito concentrada decorando sua abóbora

Gentileza

Outro dia as crianças acharam uma borboleta no parquinho, e a borboleta, muito simpática, ficou pra brincar com elas - subiu no casaco de uma, fez cócegas na mão do outro, escalou as botas de uma terceira... E as crianças, mostrando toda a delicadeza e gentileza que a gente tenta ensinar, foram bem amáveis com a borboleta. O Nathan, depois de achar a borboleta com jeito de assustada, sugeriu: vamos fazer um habitat pra ela? E lá foram eles, com folhas, galhos e flores, fazer uma casa pra nova amiga - que dali um pouco voou pra brincar em outro lugar.

Segredinho

A cena é a seguinte: 15 crianças entre 3 e 5 anos sentadas, começando o almoço. 3 professoras na sala. Um grito estridente: 2 meninos se empurram e se batem perto do leite - "ele me empurrou!", chora um; "eu tava na fila primeiro!", se defende o outro. As 3 professoras acodem. Sem gritos, ameaças, xingamentos ou respirações profundas de desespero, depois de mais gritos e choros das crianças, e muitas conversas, a paz é re-estabelecida: hoje todo mundo senta; quem quiser leite levanta a mão, e eu vou colocar o leite pra vocês. A pergunta é: como que as 3 professoras se mantiveram tão calmas e centradas durante toda a guerra? Fácil: a gente esconde chocolate no armário.

a letra A no seu nome

"nathalia, como escreve seu nome?" "ih, max... é grande, e não tem A suficiente pra escrever!" "mas olha" (coloca o U de cabeça pra baixo) explicando assim é muito fácil entender por que que eu AMO meu trabalho, né?

Equipe, brother

Frases dos dias

"The snakes that have love are not poisonous!" (Ashlyn, 4 anos, depois de ver cobras ao vivo) "That was a loud poop!!!" (Mary Caroline, 2 anos, depois de soltar um pum daqueles) "My belly is really thinking about vanilla pudding now..." (Max, quase 3 anos, antes de terminar o almoço - mas já querendo a sobremesa) "I have gas in my bottom!" (Owen, 2 anos, morrendo de rir, depois de soltar um pum também)

Felicidade

é isso aqui: hoje a Aniah levou pra escola uma boneca, que ela deu o nome de Taia. E outro dia a mãe da Mary Caroline falou que ela tava brincando com um escorredor de pratos (?!), e o nome era Tá-lía; e ela colocou a Tá-lía pra dormir, pra comer... Eu nunca vou querer outra profissão. Juro.

...

mais do que mil palavras

Meu surdo,

parece absurdo... Esse mês as crianças aprederam, na aula de música, sobre América Latina. E isso inclui, claro, o Brasil. E sendo sobre Brasil elas aprenderam, claro, sobre samba. E pra aprender, tem que colocar a mão na massa. O grupo de samba daqui de Cornell, muito gentilmente, aceitou fazer uma apresentação pra gente. E os gringos, bons da cabeça e saudáveis do pé, resolveram ME chamar para... tocar o surdo!!! Não é todo dia que a gente descobre um novo talento, né?! Pequeno grande público

Reconheça

Você sabe que uma pessoa é professora de crianças porque... . tem sempre um adesivo em algum lugar: na sola do sapato, na blusa, no cabelo... . as barras das blusas e as unhas sempre têm tinta guache . todas as calças são mais brancas no joelho e no bumbum . a casa é cheia de desenhos e pinturas que ganha de presente . é a primeira pessoa a quase ter um ataque se, num jantar, vê uma criança alheia dando cambalhotas no sofá enquanto come . tem mil histórias, hilárias, sobre as gracinhas que as crianças fazem . é a pessoa mais acostumada com cheiro de fralda suja e nariz escorrendo . chega em casa morta de cansada depois de um dia cheio, mas morre de saudade quando as férias chegam... :)