quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Dicas de Bangkok - parte 1

Volta e meia alguém me pede dicas sobre Bangkok, e um tempo atrás eu escrevi algumas coisas que achei que valiam a pena e que nem sempre estão nos blogs e guias turísticos por aí. Resolvi então dar uma ajeitada nas minhas anotações e fazer uns posts bonitinho pra, quem sabe, ajudar futuros viajantes por aí... ;)

Antes das dicas turísticas, umas dicas gerais e aleatórias:

- "Wat" é templo em tailandês, você vai ouvir e ler muiiiito essa palavra por lá;

- BTS é a sigla do skytrain, uma das melhores formas de se locomover na cidade. Bangkok tem o trânsito pesado, horas de engarrafamento... então skytrain e metrô são sempre boas pedidas. Eles costumam ficar bem lotados na hora do rush, mas são fáceis de entender e se virar.

- Os tailandeses no geral gostam muito do Rei, e é crime falar mal dele ou da família real (lesa-majestade, estrangeiros também podem ir presos por isso). Então é bom tomar um certo cuidado com comentários pejorativos, sarcásticos e afins.

- A moeda local é o bath (pronuncia bát), e eu fazia uma conversão beeem mais ou menos de R$1 = 10THB. Lembre de trocar seus bath restantes por dólares antes de voltar, porque não dá pra trocar aqui no Brasil.

- Bangkok tem basicamente 3 estações: quente, muito quente e extremamente quente, então é bom levar roupas leves. Para os templos e lugares reais que não pode entrar de short/bermuda, sugiro aquelas calças fininhas de algodão. Minha calça jeans passou 9 meses guardadinha na mala sem ver a cor do dia. Em compensação, os lugares fechados costumam ter ar-condicionado forte, então um casaquinho leve ou um lenço podem ser úteis também.

- Em quase todos os templos é preciso ficar descalça pra entrar, e muitos lugares têm vários templos, então é bom ir com sapatos fáceis de tirar e pôr. Parece besteira, mas você vai ganhar tempo e economizar preciosas gotas de suor.

- Pra pegar táxi você fala onde quer ir antes de entrar, e espera o motorista dizer se ele te leva ou não. Muitas vezes (muitas mesmo...) eles recusam, e te mandam descer do táxi sem problema caso você já tenha entrado. Se o motorista não quiser ligar o taxímetro e te der um valor fixo, pode pegar o próximo, porque ele provavelmente vai cobrar em média o dobro do que você pagaria com taxímetro.

- As pessoas se cumprimentam com o "wái", colocando as mãos juntas como o "namastê". E falam "sau-a-di-kha".

- Praticamente todas as casas e prédios têm um sapraphun (casa dos espíritos). Eu adorava observar cada uma e ver as pessoas fazendo oferendas também, então recomendo andar atento por Bangkok pra ver. Depois escrevo um post só sobre isso!

Acho que deu de dica geral, tem que deixar alguma coisa pra descobrirem ao vivo também, né?! ;P
Próximo post coloco algumas dicas de passeios e lugares.


na foto: uma sói (ruela), pra mim uma das coisas que mais representa Bangkok

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bangkok

(escrito 6 de novembro de 2015)

hoje: oito meses que chegamos em bangkok. oito meses de uma vida bem diferente, de muito desapego, de muita coragem, de muitos desafios. de novas e queridas amizades, de saudade doída, de comidas gostosas e estranhas, de um idioma cantado e difícil. meses de muito calor, de achar que 30º é "fresco", de ter saudade e inveja do frio - logo eu, ter inveja do frio! oito meses convivendo com lagartos medonhos no parque, com uma espiritualidade palpável de tão presente e com letrinhas bonitas que já fazem mais sentido. bangkok foi sorrateira, me conquistando aos poucos, testando minha paciência inúmeras vezes e me mostrando que o outro lado do mundo tem muitos encantos... um brinde então a esse mundo mundo vasto mundo!

Loy Krathong

(escrito 25 de novembro de 2015)

O loy krathong era o festival que eu mais queria ver aqui na tailândia: é quando as pessoas homenageiam os rios (mães d'água, como já vimos em outro post) agradecendo a época de plantio. É também uma chance de mandar embora todas as energias negativas e começar um ciclo de renovação. Pra isso, as pessoas colocam os krathongs (esses "barquinhos") com flores, incenso e vela, nos rios, lagos e córregos. Colocamos os nossos no lago de um parque, e foi bem lindo ver ele todo iluminado e florido.



* pra ler ouvindo essa música aqui, e nem precisa agradecer por ela grudar na cabeça depois ;)

sábado, 13 de junho de 2015

pensando alto

era com carla bruni que eles dormiam depois do almoço. todo dia, todo dia a carla bruni, o mesmo cd, as mesmas músicas. as mesmas doze crianças nos seus colchonetes, rendidas ao sono - algumas depois de uma luta, outras já felizes na entrega.

as mesmas músicas, e nós três professoras ali do lado. indo e voltando do almoço, arrumando o caos da sala depois de uma manhã ocupada. preenchendo os relatórios do dia, "o fulano comeu arroz e feijão hoje?". enchendo bacias de água pra brincadeira da tarde, porque tá muito quente hoje, acho que eles vão gostar de brincar com água, né? respondendo emails dos pais, das reuniões, lembrando da roupa de uma que sujou de tinta e está em algum canto da sala agora, tem que colocar na mochila. cortando frutas, pensando se a fiona, nossa linda peixinha, comeu muito hoje, lembrando de algum impasse do parquinho e se ajudamos a resolver de um jeito legal.

a carla bruni, insistente, até a hora de abrir a cortina e ir acordando os sonolentos. tentamos outras músicas, música nenhuma, mas eram essas músicas que eles tinham se acostumado. e acho que a gente também.

escuto agora o mesmo cd e penso que esses doze meninos e meninas já estão por aí lendo e escrevendo suas palavras, aprendendo mais e mais do mundo, e como eu aprendi também nesses anos todos que já se passaram. por alguns momentos a música me embala e volto praquela sala, pros colchonetes espalhados com suas cobertas, pro cheiro de escola e massinha e tinta e tudo mais que vem junto. e dá saudade, e alegria. e mais saudade.

sábado, 9 de maio de 2015

2558, o ano que não acabou

A ideia de virmos pra Tailândia existe há muitos anos - muitos mesmo. E desde muito tempo escuto histórias sobre os costumes, crenças e celebrações daqui. Meu maior interesse era por duas dessas celebrações: o Songkran e o Lói Kratong*.

O Songkran marca o ano novo tailandês, e o que eu entendi, perguntando por aqui e pesquisando, é que ele seguia o calendário solar budista e era cada ano em uma data, marcando o início de um novo ano astrológico, com a chegada do sol em áries. Mas, por volta de 1940, a Tailândia adotou o ano novo internacional e decidiram fixar o Songkran entre 13 e 15 de abril - sim, são 3 dias de comemoração.

O Songkran é um feriado muito importante na Tailândia, em que tudo pára, e uma época para ficar com a família, festejar, pedir bênçãos e se preparar para um novo ciclo. E vai mais ou menos assim:

O primeiro dia ainda é parte do ano velho, e um dia que as pessoas tiram para limpar suas casas, se desfazer do que não serve mais e também honrar seus antepassados e os anciões de suas famílias: não à toa, o dia 13 é também o dia dos idosos aqui.


{na foto: khun meé, minha 'sogra' daqui, lavando as mãos da mãe dela com uma água perfurmada de jasmin, para honrar a pessoa mais velha da família e também pedir suas bênçãos}

O segundo dia é o nao day, dia do meio; não é mais ano velho, mas também ainda não é ano novo. É o dia nacional da família, e também dia de ir aos templos e fazer oferendas aos monges. Na época do Songkran os mercados vendem uma espécie de "cesta" com itens para dar aos monges, como os robes laranjas, incensos, flores. Durante o Songkran vários lugares colocam estátuas do Buda para serem lavadas com a água de jasmin, como forma de oferenda. Detalhe importante é que não se pode molhar a cabeça do Buda, o certo é jogar a água devagar pelos ombros da estátua.

{na foto: eu e Clarice lavando o Buda que colocaram aqui no prédio}


O terceiro dia é finalmente ano novo, e eu estava muito empolgada achando que entraríamos no ano de 2559! Eu ia viver de pertinho um ano novo diferente, chegar mais no futuro ainda. Mas o ano não muda [pausa para a musiquinha de "fuén fuén fuéén" ao fundo]. Desde que rolou aquele acordo que falei lá em cima, em 1940, a Tailândia segue o ano novo internacional, e 2559 só vai chegar junto com 2016. #xatiada

Agora, o mais simbólico de todos esses três dias, o motivo que faz com que turistas encham Bangkok, que pára as ruas e faz a festa da galera é... a água! A água serve para limpar os mau agouros do ano anterior, e assim receber o ano novo com tudo fresco, limpo. Como já vimos, as pessoas lavam as mãos dos idosos, lavam as estátuas, então... por que não lavar uns aos outros também, certo? O Songkran é bem conhecido por ser um festival da água, em que as pessoas jogam água umas nas outras na rua. Arminhas de água (ou armonas, porque tem umas muito grandes), baldes com água, alguns baldes com gelo, mangueiras... a regra é: ninguém sai seco! Algumas ruas são fechadas só pra isso, e tem música, comidas, muita gente na rua, muita animação e muita, muita água [outro dia a gente conversa sobre o desperdício, quem sabe num post sobre a insustentabilidade dessa babilônia chamada Bangkok].

{é Songkran em Bangkok, mas quase podia ser carnaval em Salvador}

Todo mundo joga água em todo mundo: crianças, adolescentes, adultos, guardinhas (sim, os guardinhas!), motoristas de tuk tuk, passageiros nos ônibus... Nem a Clarice escapou: as pessoas vinham com muito jeitinho, faziam cara de "é Songkran, fazer o que?" e splash, davam um respingo de água na pequena. Ela estava lidando muito bem com os três dias de farra, até irmos em uma parte da rua que tinha uns sprinklers molhando todo mundo. Eu amei, fiquei feliz da vida, porque abril é o mês mais quente aqui (e eu gosto só um pouco de uma baguncinha), mas ela não gostou nada dessa história, tadinha. Ficou bem sentida de se molhar toda no meio da rua... mas passou! A ideia agora é voltarmos especialmente pro Songkran daqui uns anos, pra ela poder molhar todo mundo também!

{as roupas floridas também fazem parte da tradição, mas não descobri muito bem o por quê. Uma das hipóteses é que é a chegada da primavera. Mas pode ser que não... Veremos.}

Em alguns lugares do país dizem que as comemorações duram a semana inteira; aqui em Bangkok foram os três dias mesmo. Depois o jeito é andar nas ruas calorentas sem a esperança de que alguém vá te refrescar um pouco com uma arminha de água...


* o Lói Kratong é só em novembro, então depois eu conto como é!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

mambembe

{para ler com trilha sonora}

toca mambembe, música que descobrimos juntas, e dá pra quase sentir o ventinho frio das manhãs de junho.
o sol batendo na janela, esquentando um pouco o brando inverno de brasília, e você aninhada no meu colo, nos braços ou no sling. bem pequenina, ainda chegando nesse mundo. e mambembe tocando, e a gente dançando na sala.

a música repete, a dança também. lembro de pensar como era gostosa a sensação de dançar de pijama na sala com você, filha. e como é gostoso poder ouvir a música agora e ter essas lembranças...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Chegando

chegar em bangkok. as letrinhas em thai, que anos atrás faziam algum sentido pra mim, pulavam na minha frente sem eu entender nada. tudo era cansaço, fome, e uma sensação meio surreal de "enfim, estamos em bangkok".

logo que saímos do aeroporto, minha sensação era de afogamento. que calor, quanto prédio, quanto carro, tem um rio aqui no meio, e essas casinhas, quanto carro, caramba os prédios são grandes mesmo, que calor, isso aqui é uma megalópole!!!, e esse tanto de fio, e essas letrinhas de novo nas placas, será que algum dia vou saber andar por aqui?, o que é isso que estão vendendo no sinal, é de comer?, quanta loja, quanta gente, cadê as cores e os budas?

hoje já fazem quase 2 meses que chegamos aqui, mas sinto que chego um pouco mais a cada dia. as letrinhas já fazem mais sentido, algumas palavras que ouço também. já sei me virar bem andando de skytrain, mas me confundo ainda nas tantas sóis (ruas) por aí. achei as cores e os budas, o calor aumentou mesmo quando eu achava que não seria possível aumentar, e quase sempre o que estão vendendo é de comer, mesmo. a não ser quando são flores e incensos pras oferendas.




muitas vezes me pego pensando numa música querida que diz
"minha pegada se apaga
naquela areia
quem anda em terra alheia
pisa no chão devagar"

e assim vou, pisando devagar nessa terra. desprendendo um tico do brasil, chegando mais aqui. entendendo melhor os ritmos de bangkok, desafogando do tanto de informação para em seguida ser mergulhada de novo em outras novidades e surpresas...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Aprendendo Thai - lição 2

{post originalmente postado em março de 2012}



Relendo algumas coisas no blog achei uma primeira aula de tailandês aqui, em que eu prometia próximos capítulos.

Bom. 2 anos e meio depois (haha), eu volto pra terminar a aula. Tinha prometido: ensinar a falar rio (ainda lembro); a lombra dos presidiários (tenho uma vaga ideia, mas nem sei mais como fala presidiário...); e a facilidade de saber os cômodos da casa (esse é fácil mesmo, 2 anos sem thai e eu lembro).

Papel e caneta na mão? Cara de quem liga muito pra isso pronta?
Vamos lá!

Rio se fala meé náam (แม่น้ำ) - meé é mãe; e náam é água. Ó que bonito, o rio é a mãe das águas. Lembro que adorei quando aprendi isso, tão simples e delicado... eu gosto.

Pulemos a parte dos presidiários (quem sabe daqui mais 2 anos eu volto e conto? A esperança é a última que morre...), e vamos pro cômodos da casa. Super fácil!

Em tailandês, cômodo se fala hóong (ห้อง). Pra cada lugar da casa, então, você vai colocar a palavra ห้อง (hóong) na frente, e depois a ação que você faz no lugar, ou o que encontra lá.

Quarto é hóong noom (ห้องนอน). Noom é dormir - mas vocês já tinham adivinhado, né?

Sala de jantar é hóong ahan (ห้องอาหาร). Ahan é comida - sala da comida.

Sala de estar é legal, porque traz uma palavra bem importante pros tailandeses. Se fala hóong nang lên. (ห้องนั่งเล่น) Nang é sentar, e lên é brincar. Sério, a lição 3 vai ser só sobre o uso do lên เล่น, é muito muito legal.

E banheiro é hóong náam (ห้องน้ำ). E náam já aprendemos hoje, só olhar ali em cima. ;)

O único detalhe que falta pras aulas é a diferença dos tons (são 5), mas isso só com vídeo e áudio não tem jeito, então usem a imaginação!

Daqui 5 anos teremos: a magia do lên เล่น e, quem sabe, a tal lombra dos presidiários. Não percam!


* quer ver a lição 1? Só clicar aqui!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Tudo novo de novo

E cá estamos, do outro lado do mundo.

Hoje eu fiquei pensando que pareço criança aqui: fico juntando as letras das placas, perguntando "o que significa isso?", quando não entendo uma palavra, e mostrando feliz da vida quando decifro a placa na minha frente (mesmo que seja a de pare). Ando também cheia dos por quês. Por que tem essa casinha pequena do lado de fora? Por que alguns lugares tem duas casinhas? Por que enchem o tanque de água do banheiro devagarinho e não de uma vez? Por que comem com colher e garfo?

E aí percebi que me dispor a morar nesse outro lado do mundo, com suas tantas diferenças e outras tantas semelhanças, me colocou de fato na condição de infância - a infância da novidade, do desconhecido, do surpreendente. A infância que ri de cada pequena conquista, que se enrola pra falar o que quer, que se cansa de tanta coisa pra ver e aprender, que se encanta com as novas belezas.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Parto da Clarice

escrevi esse relato há dois meses, mas só agora deu vontade de compartilhar por aqui. então... senta que lá vem história.


O parto é uma aventura, e uma experiência. Experiência é uma palavra que usei muito nos últimos meses, ficou impressa várias vezes no meu outro parto, da dissertação. Eu falo que experiência é uma coisa que atravessa a gente, e cujo desfecho é necessariamente inesperado. Na sua raiz, experiência traz a origem, o inesperado e o perigo. Assim foi o parto da Clarice.

Todas as outras vezes que comecei a escrever esse relato (e foram algumas), eu me detive na ordem das coisas, e nos números: quantos cm de dilatação, qual o intervalo das contrações, que horas eram, qual a sequência dos fatos. E o relato ficava ali, travado e parado. Eu querendo justificar, mensurar, explicar o que na verdade não tem explicação nenhuma.

Então eu desapeguei. Me entreguei, como tenho tentado fazer todos os dias dos últimos quatro meses. Como tentei também durante a gravidez, como acho que a gente deveria fazer na vida toda. E vou tentar contar a história dessa experiência única e indescritível que foi parir minha filha.

No final da gravidez – bagunçadamente localizado em qualquer lugar depois das 38 semanas – eu senti bastante pródromos. Umas contrações que iam e vinham, mas não pegavam ritmo nem nada. Na quarta, 14 de maio, não foi diferente. Estava sentada no chão, colocando linha em tsurus de papel, quando elas começaram, pra depois parar de novo. Fiquei frustrada e achei que eu tava travando o trabalho de parto, que por algum motivo eu estava bloqueando o bebê de vir (nessa hora eu ainda não sabia que era a Clarice – até desconfiava que era uma menina, mas não tinha mesmo como saber que era a Clarice vindo). Fui dormir quase 1h da manhã decidida a ligar pra Paloma no dia seguinte e pedir pra gente conversar sobre o que poderia estar "impedindo" meu parto.

Poucas horas depois eu acordei com uma contração. Um pouco mais forte que as outras, mas ainda mais fraca que meu sono da madrugada. Tentei dormir mas, opa, mais uma. Olhei no relógio só por curiosidade, 10 minutos. Fiquei nessa de contração e tentar dormir um tempo. Senti que não ia passar e acordei o Marcel: marca aí, que acho que tem alguma coisa acontecendo. Íamos tentando dormir e marcar o ritmo. Quando o dia mais ou menos amanheceu, liguei pra Paloma e falei que estava diferente e que achava que era o dia. Ela disse que dali um pouco iria lá em casa, pra eu tentar descansar e/ou tomar um banho e comer alguma coisa.

Fui tomar banho bem animada. "Meu último banho grávida", eu pensei. Aproveitei pra raspar a perna (haha, sou dessas), porque imaginei que ia demorar um tempo até conseguir fazer isso de novo (terrorismo de “com bebê não dá tempo de na-da” super funcionou comigo). As contrações continuavam vindo, mas eram bem tranquilas de lidar. Eu respirava fundo, dobrava um pouco o corpo e logo passavam. Tirei ainda a última foto da barriga (sou dessas 2) e fui tomar o café da manhã que o Marcel tinha preparado.

(última foto oficial da barriga)

Era uma mistura de alegria e frio na barriga, e a gente se olhava meio sem acreditar, meio animados e meio tentando ficar calmos. Fiquei feliz que no dia anterior a gente tinha comprado umas flores bonitas, e lembro de pensar que esse bebê tinha esperado tudo mesmo. Sentei pra comer e uma contração veio rápido demais depois da outra, uns 3 minutos só. Uééé, mas já 3 minutos? Dei até uma desanimada, achando que ia ficar desregular e não ia ser aquele dia. Fiquei observando e as bichinhas estavam mesmo ritmadas em 3 minutos. Liguei pra Paloma: pode isso? A regra não é clara que o intervalo vai diminuindo aos poucos etc etc? Mas em parto pode tudo, e ela disse que já estava chegando para ver como eu estava. Aproveitei e liguei pra Carminha, doula e professora de yoga. Fiquei rindo porque na terça anterior, no fim da aula, a Carminha disse “até quinta” e eu falei que não queria ir pra aula quinta, que eu queria já ter parido ou estar parindo. Pois bem, se eu não vou pra aula ninguém mais vai, ha ha.

A Paloma chegou, viu que as contrações estavam ritmadas em 3 minutos mesmo e perguntou se eu queria fazer exame de toque pra ver a dilatação. Eu queria sim, estava bem curiosa. Fomos lá e tinha 2cm. Eu achei bom porque era mais que nada, então simbora. A Carminha chegou logo depois, e ficamos na sala conversando, eu respirava, andava, abaixava, ficava na bola... lembro que coloquei pão de queijo no forno pra gente lanchar, e coloquei também a trilha sonora que fiz pro parto (só uma nota: eu como fazedora de trilha sonora sou uma ótima professora... algumas músicas eu não gostei, outras tinham significado mas não tinham o menor clima, tinha uma meio triste, enfim. Foi um bom exercício, mas ainda bem que a Carminha tinha levado umas músicas). A Paloma tinha acupuntura e falou que ia, que ainda estava tranquilo e qualquer coisa podíamos ligar. Mas acho que meu santo era mais forte e quando ela chegou no carro, cancelaram a sessão. Fica, parteira!

As horas foram passando. O clima em casa era muito legal, mas eu estava cansando porque tinha dormido pouco. Com as contrações tão perto ficou difícil descansar, porque deitada doída muito mais, e ficar levantando e deitando de 3 em 3 minutos era mais cansativo do que não deitar. Consegui uma hora mais ou menos me ajeitar de lado na poltrona, mas não durou muito. Fui pro chuveiro, e o alívio foi imenso. Apoiava o corpo pra frente e ficava meio cantando, meio vocalizando. Pensei que estava até bem nesse negócio de trabalho de parto, nem tinha gritado ainda (spoiler: sabe de nada). Fiquei um bom tempo no chuveiro, acho que fiz cocô ali e morri de vergonha, mas a Carminha foi muito tranquila, no estilo "faz parte, já vi muito isso, relaxa" e eu relaxei. Parir tem dessas coisas, fazer o que.

Quando olhei, a piscina de parto já estava montada na sala, com plásticos, a mangueira vindo do banheiro pequeno e tudo esquematizado. o Marcel foi comprar algumas coisas pra fazer almoço, e depois que ele voltou começaram os preparativos. Essa foi uma das minhas partes preferidas, e tirei até foto entre uma contração e outra. Paloma ralando a cenoura (com a Carminha falando “vou tirar foto disso pra ninguém falar que parteira não rala!”), Marcel fazendo um macarrão e Carminha secando a louça e também vendo como eu estava e fazendo massagens. E eu ali, na bancada, me apoiando a cada contração, que a essa altura já doíam mais.


Almoçamos, as contrações intensificando, e a Paloma perguntou se eu queria ver a dilatação. Queria, eu acho que precisava dos números ali me falando que estava indo: 4cm. No fundo achei pouco, mas o Marcel ficou tão animado porque tinha dobrado, que eu até me animei também. Chamei ele e pedi pra ele ficar comigo, e fomos então atravessando juntos o caminho. Eu sentava na bola, me apoiava nele. A Carminha vinha fazer massagem, ajeitava a bolsa de água quente que estava nas minhas costas, e ajudava o Marcel a empurrar meu quadril, que era o que mais aliviava as dores.


Voltei pro chuveiro, e a dor já era mais forte. Quando saí do chuveiro dessa vez cheguei perto do sofá e meio que desabei, tive que me apoiar. A Paloma tinha saído nessa hora, e lembro de ouvir a Carminha ligar pra ela pra falar que estava pegando ali. Elas conversaram e acharam que já dava pra entrar na piscina, para ficar de olho pro trabalho de parto não parar. Entrei na piscina e aaaah, água quentinha, sua linda! Vou ser sincera, não é que a dor tenha passado ou ficado boa, não. Mas deu um alívio bom. Acho que nessa hora o Marcel entrou na piscina comigo (talvez tenha sido depois). Eu ficava me virando dentro d'água, tentando achar posição pra encarar as contrações. Acho também que nessa hora os intervalos estavam bem menores. Minha sensação era que estava vindo uma seguida da outra, mal dava tempo de me recompor. Pensei em duas amigas, que tinham ficado 2 e 3 dias em trabalho de parto, e admirei muito elas. Pensei comigo que eu só ia aguentar um dia mesmo e olhe lá, tava muito punk. Lembrei também de uma amiga da yoga, grávida da 2a filha, que tinha me falado uns dias antes que era uma “dor boa”. Ela disse que era boa porque tinha um propósito, a gente sabia que era o bebê vindo. Eu quis bater nela, porque na verdade eu estava começando a achar que o bebê não ia mais vir, não ia nascer nunca. Foi nessa hora também que eu comecei a gritar. Achei que eu tava dando uns gritos normais, mas aí uma hora me ouvi, e eu estava urrando. Nunca tinha ouvido uma coisa daquelas, e me perguntei como os vizinhos não tinham batido na porta ainda. Em algum momento no meio disso a Paloma voltou e começou a arrumar tudo. Ela andava de um lado pro outro, trazia coisas pra sala, mas eu pouco via. Sei também que saí da piscina uma hora, acho que fizemos outro exame de toque e eu estava com 8cm. Achei bom, mas pra ser sincera de novo, pela dor que eu estava sentido achei que ia estar em 11cm (oi, exagero). De novo na piscina e a dor estava demais. Eu não queria mais brincar desse negócio de parto, doía muito. Eu olhava pro Marcel e falava "eu não quero mais, por favor, Mar..." . Ele foi muito forte nessas horas. Segurava minha mão, olhava bem no meu olho e falava que estava tudo bem, que nosso bebê estava vindo, que eu era muito forte. Perguntei uma hora pra Carminha, em desespero, por que estava doendo tanto. Ela disse também que era meu bebê descendo, mas eu quase não acreditava mais. Parecia que eu tinha chegado em todos meus limites, que meu quadril ia arrebentar de dor. Lembro de pensar por que raios tinha inventado esse ideia (de jerico) de fazer parto em casa. Por que eu não tinha marcado a cesárea? Ou pelo menos uma anestesia? Pensei que ainda dava tempo da anestesia, mas olhei no relógio e achei que se fôssemos pro hospital ia estar um baita trânsito, e ficar parada dentro de um carro me pareceu impossível. Também achei que eu já devia tá com muitos cm e que nem ia rolar mais de tomar anestesia, então vamos lá ficar na piscina em casa mesmo. No meio desses devaneios, a campainha tocou e eu levei um susto, achando que era alguém reclamando dos gritos, mas era a Iara. Bom sinal, se a Iara chegou é porque tá perto do bebê nascer. A Iara, a Paloma e a Carminha iam me encorajando, falando que eu estava indo bem, e o Marcel me apoiando também. Nessa hora, eu era só grito e dor e vontade de desistir. Alguém falou pra eu me entregar, mas eu não sabia mais o que entregar. A Paloma disse que eu estava com 9cm e sugeriu eu colocar a mão para sentir a cabecinha do bebê começando a coroar. Mas eu estava num equilíbrio tão frágil que sentia que qualquer movimento ia doer muito mais.


Comecei a ficar muito incomodada na banheira, com calor e enjoada, então fui pra banqueta, na sala, apoiada na rede e no Marcel. A dor continuava intensa, e eu falei pra Paloma que não tinha nascido praquilo. Ela olhou pra mim e disse que eu tinha nascido praquilo, sim. Que tinha sido feita praquilo. Viu que o colo estava atrapalhando o último cm de dilatação, e sugeriu rompermos a bolsa. Eu demorei um tempo pra entender o que ela estava falando, no meio da dor. A Iara também achou que fosse ajudar, disse que estava bem indicado. Pensei que eu topava qualquer coisa que fosse ajudar o bebê a nascer. Então a Paloma rompeu a bolsa e sugeriu eu ir pro quarto, ficar meio deitada por algumas contrações. Subi na cama e fiquei um pouco lá, depois passei pra banqueta, no quarto mesmo. Num espaço pequeno entre a cama e o armário, com o Marcel atrás de mim me segurando e a Carminha na minha frente, pra eu puxar os braços dela. A Paloma pediu pra Iara pegar o oxigênio e eu gelei, achei que tivesse alguma coisa errada com o bebê. Mas era só pra me dar um fôlego, porque eu estava muito cansada. E era hora de fazer força. A bem da sinceridade (um dos meus objetivos nesse relato), eu não soube que força fazer. Fiquei meio frustrada, confesso, porque achava que eu saberia na hora. Mas eu não sabia, e as três mulheres que me acompanhavam foram me ajudando. Segura o ar, espera, solta, força. A Paloma pegou minha mão e colocou pra eu sentir a cabeça. Aaaah! Tava ali, tava nascendo! Ela colocou um espelho e eu vi o cabelinho... isso me deu um gás imenso, e fui fazendo força. Uma força imensa, sei lá da onde eu tirei essa força. Eu concentrei bem e só queria fazer o bebê nascer, e pensava que tava muito perto. De repente, a queimação. Intensa, grande, gigantesca. Círculo de fogo é mesmo uma boa descrição. A cabeça tinha saído, e num pluft depois escorregou o corpinho.

Nasceu! Meu bebê nasceu! A Iara falou "vinte e uma e quarenta nove", a hora que eu nunca vou esquecer na vida. A Paloma tirou a volta do cordão (que eu nem vi na verdade, fiquei sabendo depois) e me entregou aquele pacotinho. Eu não acreditava. Não acreditava que tinha nascido, que eu tinha parido, que a dor tinha acabado, que eu era mãe, que tinha uma pessoa nova no mundo. Dei as boas vindas, e olhava pro pacotinho e pro Marcel, e beijava o pacotinho. Aí lembramos de olhar pra saber se era menino ou menina: menina! É uma menininha linda, olha, meu amor. Uma emoção sem tamanho tomou conta de mim, da casa, do mundo. Levantei e fui pra cama, deitei um pouco. Fiquei ali namorando a menininha linda que, ao contrário do que eu queria, não tinha a menor cara de Clara. Ela já mamou, sugando muito forte, e a Iara disse que pelo jeito ela nasceu porque estava com fome. Elas saíram do quarto e ficaram na sala. Ficamos eu, Marcel e nossa filha ali. Quis ligar pra minha mãe pra contar, e foi uma bagunça só enquanto ela contava pro meu pai e pros pais do Marcel, que estavam lá. Liguei pra minha irmã e pro meu irmão. Os irmãos do Marcel já tinham ficado sabendo. Quanto amor dava pra sentir em tão pouco tempo! Ela tava ali, no meu colo. Minha filha.


A Paloma, a Iara e a Carminha voltaram depois. A placenta saiu lindona, segundo a Iara. Me limparam um pouco, a Carminha me deu sopa na boca. Paloma pesou e mediu a pequena, que nasceu com 49cm e 3,600kg e só ganhou nome no dia seguinte (eu achava que íamos demorar semanas, então menos de 24h foi bom demais). Ela ficou ali, no meu colo. Nosso pacotinho mais lindo... O Marcel cortou o cordão umbilical dela, e a Paloma já tirou o sangue para fazermos o exame de rh no dia seguinte. A Carminha foi embora primeiro, cansada do dia intenso, e a Iara e a Paloma ainda ficaram um pouco, porque tive que levar uns pontos. Depois dormimos, pela primeira vez, nós três na nossa casa. O mundo tinha mudado pra sempre.


Hoje consigo reconhecer a beleza e a força do parto que tive, com suas travessias, dúvidas e sombras. Com as longas horas e tudo mais que aconteceu. Mas logo depois eu achei que tivesse sido um parto "menor", como se existisse isso. Como se cada vez que vacilei, que achei que não fosse aguentar, diminuíssem a minha experiência. Percebo agora a bobagem que isso é, a armadilha em que me meti. Todo parto é gigante e imenso, todo parto é único, todo parto é como deve ser. Todo parto é uma passagem pra algo muito maior, todo parto ensina o que a gente precisa. Todo parto é perfeito do seu jeito. Foi isso que aprendi, e vou aprendendo a cada vez que conto do parto, cada vez que lembro de detalhes.
Muita coisa ficou de fora do relato, claro. A Paloma toda hora escutando o coração do bebê, o quase vômito que rolou, os outros cocôs fora de lugar que rolaram também. A Paloma falando que minha frase “eu não nasci pra isso” tinha sido inédita (vou entrar pro caderninho!). Tantas belezas, nuances e escatologias que fazem parte do parto, parte da vida.


E agora, sentindo como quem ganha um Oscar (só que bem mais legal), os agradecimentos.
Falo, de jeito bem piegas, que as três mulheres que estavam comigo foram como fadas, cada uma com um presente. A Paloma trouxe força. Uma força carinhosa, mas determinada e firme, que me ajudou a seguir em frente e acreditar. A Carminha, com seu jeito lindo, trouxe tranquilidade. Uma calma tão grande que tomou até sorvete no meio do turbilhão, e eu adoro lembrar disso. A Iara, que eu só tinha visto uma vez na vida, trouxe a amorosidade. A torcida que ela fez pra mim foi indescritível e fez muita diferença. Impossível agradecer suficientemente tudo o que elas fizeram, tudo que foram. É um laço que, eu acredito e espero, não se desfaz. Elas ajudaram a trazer minha filha ao mundo com respeito, carinho e confiança, e pra isso não existem palavras.


Agradeço, muito, ao Marcel, meu marido e companheiro, que vivenciou o parto comigo de forma tão intensa e entregue. Foi ali meu porto seguro, acreditando em todos os momentos na minha força quando eu mesma duvidava. Compartilha a vida, os sonhos e as aventuras comigo, e disso também as palavras não dão conta.
Agradeço à Clarice, por ser do jeitinho dela e por ser minha filha.
E agradeço à vida, “que me ha dado tanto”.