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Susto

Não sei muito bem como contar; só sei que ontem a gente foi no museu que tem aqui em Cornell, assim como quem não quer nada, e logo na primeira galeria, aquele susto: tinha um Rembrandt olhando pra mim. Assim, ao vivo, dava até pra ver os detalhes da caneta (era uma gravura). Caramba. Nunca tinha visto um quadro famoso, daqueles que a gente estuda na escola, na minha frente. Mas depois os sustos só aumentaram: um Picasso. Meu deus. Dava pra ver os pontinhos dos detalhes da tinta, imagina. Em seguida, tinha um Monet. Quase caí pra trás. Praticamente uma obscenidade um quadro desses aparecer de surpresa na sua frente, sem guia, sem aviso, sem nada. Tinham ainda dois do Manet; um do Cézanne; e até uma escultura do Picasso. Tudo assim, na minha frente. Orginais, detalhados, lindos, berrantes, discretos. Emocionantes. Depois da escultura eu tava me sentindo até meio sufocada - sei lá o que a gente faz com essa responsabilidade de ver tanta coisa bonita junta...

Paixão

Não tem dor mais feliz do que um pé doendo de tanto dançar. O pé cansado agradece, na verdade, o tanto de rodopios, passos, pra lá, pra cá, tantos movimentos. As pernas, meio tontas de irem de um lado pro outro, respiram aliviadas: foi pra isso, pra se fazerem felizes na dança, que as pernas foram feitas. A cabeça voa, leve e inspirada. E suspira... ah, como é bom. A vida que gira mais rápido durante mil rodopios seguidos; a confiança que as mãozinhas pra cima inspiram; o ritmo que entra no peito e lá se instala; a felicidade de dançar e dançar e dançar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Me gusta. Mucho.