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Mostrando postagens com o rótulo vida

Bangkok

(escrito 6 de novembro de 2015) hoje: oito meses que chegamos em bangkok. oito meses de uma vida bem diferente, de muito desapego, de muita coragem, de muitos desafios. de novas e queridas amizades, de saudade doída, de comidas gostosas e estranhas, de um idioma cantado e difícil. meses de muito calor, de achar que 30º é "fresco", de ter saudade e inveja do frio - logo eu, ter inveja do frio! oito meses convivendo com lagartos medonhos no parque, com uma espiritualidade palpável de tão presente e com letrinhas bonitas que já fazem mais sentido. bangkok foi sorrateira, me conquistando aos poucos, testando minha paciência inúmeras vezes e me mostrando que o outro lado do mundo tem muitos encantos... um brinde então a esse mundo mundo vasto mundo!

Parto da Clarice

escrevi esse relato há dois meses, mas só agora deu vontade de compartilhar por aqui. então... senta que lá vem história. O parto é uma aventura, e uma experiência. Experiência é uma palavra que usei muito nos últimos meses, ficou impressa várias vezes no meu outro parto, da dissertação. Eu falo que experiência é uma coisa que atravessa a gente, e cujo desfecho é necessariamente inesperado. Na sua raiz, experiência traz a origem, o inesperado e o perigo. Assim foi o parto da Clarice. Todas as outras vezes que comecei a escrever esse relato (e foram algumas), eu me detive na ordem das coisas, e nos números: quantos cm de dilatação, qual o intervalo das contrações, que horas eram, qual a sequência dos fatos. E o relato ficava ali, travado e parado. Eu querendo justificar, mensurar, explicar o que na verdade não tem explicação nenhuma. Então eu desapeguei. Me entreguei, como tenho tentado fazer todos os dias dos últimos quatro meses. Como tentei também durante a gravidez, como acho...

morando no azul

Eu mergulhava numa piscina muito azul, e era uma delícia entrar na água. Ficava tentando achar o fundo da piscina para pegar impulso, mas parecia não ter fim. Então eu ia, com um pouco de medo e uma agonia de não saber quando ia conseguir colocar o pé no chão. Enfim, o chão chegava, e eu pegava um impulso grande. Tão, tão grande, que eu saía da água e voava, dava pra ver a piscina lá embaixo. E eu ficava com medo de não voltar, de sair voando pra sempre. E caía de novo. Pensava, então: "é isso que é a maternidade". ((com trilha sonora ))

saudade

esses dias tenho pensado muito sobre saudade - sobre a que eu estou "matando", aqui, ao rever pessoas e lugares queridos, e sobre a outra que eu estou alimentando, das pessoas e lugares do brasil. queria, mais uma vez, tentar explicar como que traduz essa tal saudade. me vi com um certo orgulho de pensar que é impossível traduzir saudade. que é uma palavra tão nossa que não existe equivalente no mundo. que falar que é "sentir falta" (miss you, por exemplo), não faz nem cosquinha no que é a saudade mesmo. será que a diferença é só poética? será que sentir falta de algo, de alguém, é diferente de sentir saudade? assim, a saudade me parece um "pó de poesia", talvez de ternura também, pra contrariar a aparente "mecanicidade" de "só" sentir falta. vai ver a saudade é quando a falta é também doce, e quando dói um pouquinho no aperto que dá, tudo ao mesmo tempo. a saudade é também aquele sorriso que vem pro rosto quando uma lembrança che...

Dois lados

primeiro ato sábado, sol, praia de ipanema, passa uma moça vendendo cangas e colchas lindas. eu paro pra perguntar o preço. vamos conversando, negociando, ela me dá um super desconto. quando vejo, já estamos as duas sentadas em outras cangas, batendo papo. cida, o nome dela. começa a me contar da vida, do que faz, do que gosta. diz que é cabelereira, e eu logo me animo: "ah, sério? to querendo cortar meu cabelo, cê não corta pra mim, não?" ela disse que sim, que cortava. é de brasília também, sobradinho, mas já está no rio há 25 anos. riso fácil, conversa boa, diz que da próxima vez que eu vier pro rio é pra ficar na casa dela. trocamos telefone, ela me dá um brinco de presente e diz que se um dia tiver uma neta, vai dar o nome de nathália, "porque toda nathália é ótima!". eu que não vou discordar, né?! na outra semana, nos encontramos por acaso na praia de novo, como velhas amigas. mais papo, mais combinações, o encontro pro tal corte de cabelo - amanhã, he...

Rio de Janeiro - I

Como se mede o tempo? Em dias, são sete. Em horas, 168, mais ou menos. Em meses, 1/4. Em vidros de requeijão, um e meio. Em pão, três pacotes. Em idas à praia, para sol ou não, cinco. Encontros gostosos com a família, dois. Se fosse medir o tempo em risadas, daria eternidade. Em conversas, das mais variadas, também. Medindo em Colóquio, um. Em inspirações, infinito. Em livros começados, quatro. Em vontade de fazer o mestrado, até as estrelas. Em situações corriqueiras que só o Rio traz, umas mil. Em cronos, desde segunda passada. Em aión, nunca estive em outro lugar...

Extra! Extra!

Greve geral dos neurônios - cérebro não funciona Neurônios exigem melhores condições de trabalho e decidem, em assembleia, entrar em greve. "É impossível", diz o líder da categoria. "Ela sobrecarrega a gente com lembranças infindáveis, problemas insolúveis e muito estresse. Não tem como continuar." Um neurônio, que não quis se identificar, disse que a pior parte do trabalho é ser constantemente ignorado. "De que adianta me matar de trabalhar? No final ela não escuta a gente, acho que nem vai sentir o impacto da greve." - desabafou ele, emocionado. A responsável pelo cérebro não quis gravar entrevista mas disse, por meio de sua assessoria, estar muito abalada com a situação. Uma reunião para negociação está marcada para hoje, no fim da tarde.

Da razão

Estavam lá, voltando de alguma aula, as meninas da turma. Nina e Maria conversam sobre algum assunto, e Nina fala: "é, Maria, você tem razão." A Maria na mesma hora rebate, quase chorando: "Não, eu não tenho razão! Eu não quero ter isso!!!" Clara, que tava do lado, percebe logo que se trata de alguma coisa muito ruim, e se junta ao coro: "Eu também não tenho isso, não quero ter isso de razão!" A gente meio que ri, meio que se surpreende, meio que segue com o resto da turma pra ninguém se perder no caminho. Aí a gente chega na sala, muda de assunto, lava as mãos pra comer frutinha, e a Clara vem falar pra Maria, debochada: "Você tem razão-ão...!" ~ E né. Que bom seria não querer ter isso, não. Razão? Eca. Passo, obrigada. Longe de mim querer ter razão. Longe de mim pensar em ter esse negócio aí. Eu sempre fico me perguntando, quando eu to com as crianças, que horas que se quebra essa sabedoria. Eu sei, eu sei que não dá pra gente m...

rabiscos

a novidade da semana é um gesso no braço direito, bem chato (e pré-histórico, segundo me disseram) que me impede de fazer algumas coisas pequenas, daquelas do dia-a-dia que passam despercebidas até vc ter um grande desafio para fazê-las - como digitar essas algumas palavras. e, bom, tem sei lá, 24h que to de gesso, e o que mais to sentindo falta é de escrever. não é de digitar, vejam bem, é de escrever mesmo. lápis e papel, minha letra ora pequena, ora torta, ora capricho. lembretes, desabafos, ideias, compromissos, observações de falas interessantes, uma poesia inspiradora na parede que eu queria no caderno. um telefone, uma música que não sai da cabeça, uma lista de compras ou afazeres... que saudade. eu nem sabia que escrevia tanto assim, e que escrever era assim uma parte tão grande de mim... e aí pensando nisso eu lembrei de um texto do eduardo galeano que uma colega leu na aula inspiradora de quinta passada: " Celebração de bodas da razão com o coração Para que a g...

Tum-dum

Amanhã vai ser minha primeira despedida - última reunião da escola que eu participo, então decidi fazer uns brigadeiros e levar de agrados pra todo mundo. Hoje estávamos fazendo os tais brigadeiros (por "estávamos" leia-se: Marcel fez tudo e eu fiquei colocando a massa no granulado pra ele enrolar). Enquanto ele foi começar a massa pro beijinho, eu terminei de enrolar os últimos brigadeiros, que não ficaram assim, exatamente... redondos. Sei que quando ele voltou, teve que re-enrolar todos os meus. Feliz e agradecida, fui toda romântica falar com ele: "Oh, meu amor, o que eu faria sem você?" A resposta? Brigadeiros quadrados. :o)

prontofalei!

* eu não aguento mais escrever sobre o Somchaay - um menino tailandês, fictício, que habita nossas redações e deveres há mais de um mês. em uma viagem pra Tailândia, Somchaay não se planejou direito e acabou fazendo trabalho forçado em uma fazenda, depois num barco pirata (!!!) e depois teve que dar aula em um templo. já esgotei meus assuntos com ele, podemos falar de outra coisa agora? brigada. * to viciada em ídolos, confesso. tudo começou quando o marcel quis me mostrar um carinha do interior do ceará que cantava igual ao zezé (o dicamargo). depois foram alguns vídeos no youtube. depois o site pra ver quem era quem... e agora assistimos ao vivo toda semana. e eu torço, imito, rio e não fico mais sem. * eu morro de vergonha de cantar na frente de alguém, mas juro que minha afinição melhorou MUITO esse semestre, graças a umas poucas aulas de canto que fiz. meu chuveiro super concorda comigo, e é meu maior fã. ;)

Aleatoriedade: definição

10 da noite depois de um dia longo, com aula e muiiito trabalho, e eu to aqui, sacudindo as pernas e comendo nutella, com mais energia do que Itaipu pulando dentro de mim. Que nem as crianças lá da escola, que no fim do fim do dia, quando as mães chegam pra irem embora, resolvem se soltar, correr pela sala, subir e descer escada num ritmo alucinado, cantar, rodar e rir... pois é. Como eu não tenho escada, e nem espaço pra correr, e não posso atrapalhar muito os vizinhos, to aqui. Sacudindo a perna e comendo nutella. Nutella, aliás, é uma invenção dos céus, né? Acho que esse fim de semana eu vou no farmer's market - tem uma moça da Bélgica (eu acho) que faz um crepe de morango com nutella de cair o queixo... é muiiito morango, e muiiita nutella. Praticamente um crime contra os bons costumes, já que a bagunça é inevitável. Falando em bagunça, lembrei da escola. Porque todo dia é uma bagunça diferente, né? É prato que cai, é menino que bate a cabeça do amiguinho na árvore (quisera e...

Segredinho

A cena é a seguinte: 15 crianças entre 3 e 5 anos sentadas, começando o almoço. 3 professoras na sala. Um grito estridente: 2 meninos se empurram e se batem perto do leite - "ele me empurrou!", chora um; "eu tava na fila primeiro!", se defende o outro. As 3 professoras acodem. Sem gritos, ameaças, xingamentos ou respirações profundas de desespero, depois de mais gritos e choros das crianças, e muitas conversas, a paz é re-estabelecida: hoje todo mundo senta; quem quiser leite levanta a mão, e eu vou colocar o leite pra vocês. A pergunta é: como que as 3 professoras se mantiveram tão calmas e centradas durante toda a guerra? Fácil: a gente esconde chocolate no armário.

Quarta-feira

Sabe quando alguma coisa acontece durante o dia, e você pensa: "eu vou lembrar disso pra sempre"? Então; minhas quartas-feiras são assim. Toda quarta a gente tem reunião na escola, e um pequeno intervalo de meia hora entre o fim da escola e a reunião. E essa meia hora consegue ser uma delícia! Um dia vamos comprar um sundae; no outro a gente vai comer um sanduíche super gostoso num café; em outro ainda a gente vai numa feira de produtos locias comprar umas tortas e guloseimas... e no caminho um monte de risadas, músicas cantadas juntas, curvas perigosas, caminhos errados, piadas e cumplicidade. Uma companhia que se cria todo dia, na verdade. Mas quarta-feira tem um gosto especial; é a sensação de estar fazendo aqui a minha casa, e sei que esses sorrisos vão ficar em mim, pra sempre...

Tudo-ao-mesmo-tempo-agora

"Life happens", disse uma amiga minha com um suspiro, depois que eu tive que dar um bolo nela. De fato, a vida acontece. Tem vezes só que acontece demais. Rápida demais, intensa demais, com muitos detalhes, problemas e sensações. Tem dias que não basta só ficar gripada, tem que também bater a cabeça; ou não basta ter que se preocupar com tanta coisa da vida real, é preciso também perder uma luva, e ficar de mão manca. Mas o bom é que a vida acontece pros dois lados. E daí não basta ter uma família, tem que ser a família mais engraçada, mais companheira e que mais me apóia. Não adianta também ter um amigo: tem que ter bons amigos, daqueles que me fazem feliz só pelo fato de existirem. E daí é claro que um marido não faz verão: tem que ser um marido melhor que a encomenda, com detalhes mais encantadores do que qualquer sonho ou pedido já pensado. Pra cada reclamação, um agradecimento. E a gente vai levando, essa vida.

Reconheça

Você sabe que uma pessoa é professora de crianças porque... . tem sempre um adesivo em algum lugar: na sola do sapato, na blusa, no cabelo... . as barras das blusas e as unhas sempre têm tinta guache . todas as calças são mais brancas no joelho e no bumbum . a casa é cheia de desenhos e pinturas que ganha de presente . é a primeira pessoa a quase ter um ataque se, num jantar, vê uma criança alheia dando cambalhotas no sofá enquanto come . tem mil histórias, hilárias, sobre as gracinhas que as crianças fazem . é a pessoa mais acostumada com cheiro de fralda suja e nariz escorrendo . chega em casa morta de cansada depois de um dia cheio, mas morre de saudade quando as férias chegam... :)

Crime

Hoje eu recebi uma carta de Cornell falando que eu to devendo U$100 (CEM dólares!!!) pra biblioteca, por causa de um livro "não devolvido", que eu devolvi em dezembro. Isso é pra gente ver como a crise tá braba: uma universidade "ivy league", do tamanho de Cornell, com rios e rios de dinheiro, tem que explorar e roubar alunos pra conseguir cem dólares pra pagar as contas no fim do mês. Sabe como é, 34 mil dólares de tuition, por ano, de cada aluno, mal dá pra pagar a pizza da semana... o.O

Inspiração

O sumiço não é por falta de vontade de escrever, nem porque não tem nada pra falar. Nem mesmo falta de tempo é a responsável por tanto tempo sem dar o ar da minha graça aqui. O problema mesmo é o timing da inspiração: as melhores idéias e os melhores textos só chegam momentos antes do sono, quando eu já estou confortavelmente deitada, com meu edredon quentinho, pronta para meu repouso... e daí vem o texto inteiro na minha cabeça. Várias vezes. Eu até fico repetindo e repetindo as palavras em silêncio, tentando não esquecer pro dia seguinte, mas é em vão: chega a manhã e eu não lembro nem o assunto. Quem sabe daqui a pouco as palavras não se comportam e chegam em um domingo à toa, ou na hora do almoço enquanto eu ainda tenho 15 minutos de intervalo e nada pra fazer? Enquanto isso, esperemos. ;)

Saudade

O negócio é que eu preciso de raízes, e às vezes me pego pensando se eu devia ou não criar laços tão profundos aqui. Afinal, daqui a pouco a gente voa de novo, e lá vai a saudade apertar em dobro, de novo, do jeito que eu já bem conheço. Mas é impossível, pra mim, não me encantar com as pessoas que conheço, não querer saber mais, rir mais. Estar no mundo significa também fazer parte do mundo dos outros, e ter pessoas queridas no meu mundo. O que eu acho mesmo é que a saudade nunca mais vai sair da minha vida. E eu agradeço por isso.