Pular para o conteúdo principal

pensando alto

era com carla bruni que eles dormiam depois do almoço. todo dia, todo dia a carla bruni, o mesmo cd, as mesmas músicas. as mesmas doze crianças nos seus colchonetes, rendidas ao sono - algumas depois de uma luta, outras já felizes na entrega.

as mesmas músicas, e nós três professoras ali do lado. indo e voltando do almoço, arrumando o caos da sala depois de uma manhã ocupada. preenchendo os relatórios do dia, "o fulano comeu arroz e feijão hoje?". enchendo bacias de água pra brincadeira da tarde, porque tá muito quente hoje, acho que eles vão gostar de brincar com água, né? respondendo emails dos pais, das reuniões, lembrando da roupa de uma que sujou de tinta e está em algum canto da sala agora, tem que colocar na mochila. cortando frutas, pensando se a fiona, nossa linda peixinha, comeu muito hoje, lembrando de algum impasse do parquinho e se ajudamos a resolver de um jeito legal.

a carla bruni, insistente, até a hora de abrir a cortina e ir acordando os sonolentos. tentamos outras músicas, música nenhuma, mas eram essas músicas que eles tinham se acostumado. e acho que a gente também.

escuto agora o mesmo cd e penso que esses doze meninos e meninas já estão por aí lendo e escrevendo suas palavras, aprendendo mais e mais do mundo, e como eu aprendi também nesses anos todos que já se passaram. por alguns momentos a música me embala e volto praquela sala, pros colchonetes espalhados com suas cobertas, pro cheiro de escola e massinha e tinta e tudo mais que vem junto. e dá saudade, e alegria. e mais saudade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

paredes

quando eu engravidei a gente morava em um apartamento de dois quartos que tinha sido reformado pra ser um quarto só - um quarto bem grande, com uma escrivaninha imensa na ponta, uma amplidão que só vendo. e uma das primeiras coisas que pensamos foi: "o bebê vai precisar de um quarto!" (falo sobre essa ilusão em outro post depois, vamos por partes).

começamos então uma pequena reforma pra levantar a parede e dividir o quarto em dois, e esses dias pensei nessa história e lembrei da angústia que isso me deu. lembro de um dia deitar na cama e chorar, me sentindo claustrofóbica e apertada. acho que na verdade aquela parede, além dos enjoos e da barriga crescendo, materializava a mudança imensa que estava acontecendo, toda a transformação que estava por vir. era uma das primeiras concessões que o meu eu-mãe fazia ao bebê, e acho que me fez pensar em todas as outras coisas que eu abriria mão, em tudo que nunca mais seria o mesmo.

hoje, vejo como foi bom eu ter tido esse tempo de c…

passos

filha, hoje eu aprendi que preciso confiar nos seus passos. vc queria atravessar por aí, como seus amiguinhos estavam fazendo com tanta tranquilidade, e eu fiquei te dando a mão. até que vc falou que queria ir sozinha, que vc conseguia, e eu falei que eu tinha medo. tentei pegar sua mão de novo, e vc não deixou. "eu consigo, mamãe." e foi. concentrada, com seu passo pequeno e tão confiante, determinada como vc sempre é. eu fui logo atrás, segurando a respiração e repetindo como um mantra que preciso confiar nos seus passos. vc atravessou, ficou feliz e orgulhosa, e eu também. o coração acelerado, pensando "e se...". mas confiando. assim vai ser, filha, por todo o tempo: eu aprendendo a confiar nos seus passos, nas suas escolhas. sabendo que às vezes vc vai cair e eu vou precisar ser forte pra te amparar. sabendo que muitas vezes vc vai me mostrar ser mto mais capaz do que eu julgo, me ensinando que meu papel é te encorajar e deixar ir. não achei que fosse ser difíc…

desmame

foram mtas tentativas de desmame; teve a vez que a dentista fez terrorismo e disse que as cáries eram da amamentação. e eu acreditei, cheguei em casa de noite e falei que não ia ter peito, e a clarice chorou muiiiiito, e eu chorei muito tb, até desistir depois de 1h e dar mamá pra ela, as duas soluçando e eu abraçando ela forte. eu falava nessa época que queria desmamar, mas não estávamos prontas. teve tb no natal, que ela passou dois dias sem pedir e eu pensei que pronto, tinha desmamado assim, sozinha e do nada. mas, risos, claro que não. teve as vezes que eu quase surtava de madrugada, exausta e irritada. teve a vez no carnaval, que eu tive que ninar ela no colo duas madrugadas, peguei uma gripe braba e desisti pq precisava dormir. e teve a vez que foi, de verdade, o desmame. não teve combinado, não falei que ela era grande (pq ela sempre respondia isso com um gugu-dadá com voz de bebê, falando que era pequenininha), e tb não teve raiva ou surto. era o segundo dia que ela mamava de…