Pular para o conteúdo principal

a mãe

mãe de manual. era essa mãe que eu queria ser. a que faz tudo certinho, que é equilibrada e sempre sábia. eu acho que a gente vive tempos de uma maternidade muito prescritiva, com muitas respostas, ritos e fórmulas, pesquisas indicando tudo e fazendo acreditar que criar filho é uma ação-reação linear e previsível (faça isso de tal jeito que o resultado será esse. se não for é pq vc fez algo errado, ops, volta pro fim da fila). e eu gostei disso, acho. achei que era uma corda da salvação, que era tudo que eu precisava, e mergulhei fundo nisso. sim, acho que tem um contexto que pesa muito, mas também me foi cômodo decidir entre aquilo que estava dado como eficaz, certo. mais fácil e menos arriscado que achar meu próprio caminho.

hoje eu quero achar que faria muita coisa diferente. leria menos sobre maternagem e suas nuances, e mais sobre feminismo e sororidade; leria menos relatos de parto e me olharia mais no espelho; leria menos sobre picos de crescimento e mais poesias. hoje eu tô tentando esse exercício, de me achar no meio dos meus papéis, de parar de me chicotear por não ser a mãe-manual, de fazer escolhas que sejam minhas, mesmo que muito pequenas. e quero lembrar desses gestos mínimos, porque são passos pra alguma coisa, espero. a gente precisa sempre começar de algum lugar.




[escrito em 05.dezembro.2016]

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

paredes

quando eu engravidei a gente morava em um apartamento de dois quartos que tinha sido reformado pra ser um quarto só - um quarto bem grande, com uma escrivaninha imensa na ponta, uma amplidão que só vendo. e uma das primeiras coisas que pensamos foi: "o bebê vai precisar de um quarto!" (falo sobre essa ilusão em outro post depois, vamos por partes).

começamos então uma pequena reforma pra levantar a parede e dividir o quarto em dois, e esses dias pensei nessa história e lembrei da angústia que isso me deu. lembro de um dia deitar na cama e chorar, me sentindo claustrofóbica e apertada. acho que na verdade aquela parede, além dos enjoos e da barriga crescendo, materializava a mudança imensa que estava acontecendo, toda a transformação que estava por vir. era uma das primeiras concessões que o meu eu-mãe fazia ao bebê, e acho que me fez pensar em todas as outras coisas que eu abriria mão, em tudo que nunca mais seria o mesmo.

hoje, vejo como foi bom eu ter tido esse tempo de c…

passos

filha, hoje eu aprendi que preciso confiar nos seus passos. vc queria atravessar por aí, como seus amiguinhos estavam fazendo com tanta tranquilidade, e eu fiquei te dando a mão. até que vc falou que queria ir sozinha, que vc conseguia, e eu falei que eu tinha medo. tentei pegar sua mão de novo, e vc não deixou. "eu consigo, mamãe." e foi. concentrada, com seu passo pequeno e tão confiante, determinada como vc sempre é. eu fui logo atrás, segurando a respiração e repetindo como um mantra que preciso confiar nos seus passos. vc atravessou, ficou feliz e orgulhosa, e eu também. o coração acelerado, pensando "e se...". mas confiando. assim vai ser, filha, por todo o tempo: eu aprendendo a confiar nos seus passos, nas suas escolhas. sabendo que às vezes vc vai cair e eu vou precisar ser forte pra te amparar. sabendo que muitas vezes vc vai me mostrar ser mto mais capaz do que eu julgo, me ensinando que meu papel é te encorajar e deixar ir. não achei que fosse ser difíc…

desmame

foram mtas tentativas de desmame; teve a vez que a dentista fez terrorismo e disse que as cáries eram da amamentação. e eu acreditei, cheguei em casa de noite e falei que não ia ter peito, e a clarice chorou muiiiiito, e eu chorei muito tb, até desistir depois de 1h e dar mamá pra ela, as duas soluçando e eu abraçando ela forte. eu falava nessa época que queria desmamar, mas não estávamos prontas. teve tb no natal, que ela passou dois dias sem pedir e eu pensei que pronto, tinha desmamado assim, sozinha e do nada. mas, risos, claro que não. teve as vezes que eu quase surtava de madrugada, exausta e irritada. teve a vez no carnaval, que eu tive que ninar ela no colo duas madrugadas, peguei uma gripe braba e desisti pq precisava dormir. e teve a vez que foi, de verdade, o desmame. não teve combinado, não falei que ela era grande (pq ela sempre respondia isso com um gugu-dadá com voz de bebê, falando que era pequenininha), e tb não teve raiva ou surto. era o segundo dia que ela mamava de…