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domingo

Pequena crônica de uma manhã de domingo “Mãe, vamo andar de bici?” Vamos, claro, deixa só eu dar um mamá pra elisa que ela tá chorando. Opa, fez cocô, vou trocar. Ixi, vazou de novo, será que a fralda tá pequena? Será que não to colocando direito? Troca, limpa, pega outra roupa, eita nariz tá sujo, limpa também, ai esse olho não para de remelar, faz nota mental para marcar a pediatra desse mês e outra nota mental para lembrar de perguntar do olho. Tudo limpo, só colocar no sling agora, filha. Abre o tecido, vai colocando, “olha mãe, você é um camelo, vou te levar pra passear”, enquanto puxa o tecido. Pera, filha, solta aí, vou colocar elisa. Decifra o tanto de pano, olha pra baixo: tudo torto. A Nathália de antigamente, deusa dos slings, rainha das amarrações, poderosa do colinho, me julga fortemente. Tira bebê, desamarra pano, começa tudo de novo. “Mãe, esse pano é lindo, parece um vestido”, enquanto se enrola no que sobra de pano. Filha, preciso colocar pra gente ir andar de bic...

coragem

a coragem está justamente em pular sem garantia nenhuma. é mergulhar no desconhecido sem saber o que vem depois, o que espera na curva, confiando apenas naquilo que impele, que move, que faz pulsar. a coragem é feita de trama fina, mas resistente. passa às vezes despercebida pelos olhares mais desatentos. não se reveste de certezas nem redes de proteção, mas se forja no vento que bate na pele quando do pulo, no coração que bate ligeiro, no frescor simples de acreditar. não é de matéria frágil que a coragem é feita, e nem da insensatez. ela é construída em força, desejo e um ímpeto incontido de pegar a vida pelas mãos.

quarta-feira

é uma quarta-feira comum, como tantas outras e tantos dias. na hora da saída um menino de sete anos sai correndo para encontrar o pai e contar, orgulhoso, que fez um caça-palavras e achou a palavra folha. uma criança - e duas, e dez - pedem só mais cinco minutos pra brincar, e os pais suspiram, resignados que os cinco minutos vão bem virar uns quinze. uma bebê dorme no colo da mãe, depois de uma manhã cheia de frutas no pé, brincadeiras, aprendizados. algumas crianças correm pro almoço, uma pequena corre pra me dar um “abraço de urso daqueles nossos apertados”, um menino de três anos toca o sino do portão e ri. mães e pais trocam sorrisos e cumprimentos, procuram chinelos, carregam mochilas, perguntam do dia. eu fico ali no portão, olhando isso tudo com o coração cheio. é uma quarta como outra qualquer, mas que sorte incrível ver essa felicidade toda se desdobrando bem na minha frente.

porteira

eu adoro minha função “porteira” na escola; adoro dar bom dia, boa tarde, oi e tchau pra todo mundo, adoro cumprimentar as pessoas, adoro ver as crianças chegando com as carinhas de sono, pressa e animação e indo embora cheias de terra e histórias. adoro ver o quintal ganhando vida, observar as professoras recebendo cada um com um sorriso tão grande e tão sincero, ver os amigos se abraçando felizes. e adoro olhar os detalhes: as flores, os vidrinhos coloridos refletindo o sol, os calangos passeando, as frutas crescendo. e às vezes olhar pra cima e lembrar de respirar e agradecer. e respirar mais um pouco. 💙

seis horas

seis horas da tarde, sexta-feira, a escola toda em quietude. hora de ir cuidando dos detalhes: carregar a pirâmide pra um lugar coberto, fechar uma porta que ficou aberta, apagar alguma luz que esqueceram acesa, guardar a garrafinha perdida no quintal. vou andando pela escola vazia e pensando em tudo que aconteceu ali nas últimas horas de um dia bem cheio. as brincadeiras no quintal, as estudantes de pedagogia que vieram fazer pesquisa; as aulas de música sobre diferentes etnias indígenas, a criança nova que estava indo pra escola pela primeira vez, o menino que pediu minha ajuda pra aprender a descer pelo “cano do bombeiro”, as comidinhas feitas de lama e folha, as bocas sujas de feijão e as barrigas cheias. também os conflitos e brigas, os “é meu”, “não gosteeei!”, “não me empurra!”; os convidados do creas que foram conversar sobre diversidade, gênero e respeito; o pequeno que passou mal, a reunião que precisou ser remarcada, a impressora que não funcionou, os abraços compartilhados,...

passos

filha, hoje eu aprendi que preciso confiar nos seus passos. vc queria atravessar por aí, como seus amiguinhos estavam fazendo com tanta tranquilidade, e eu fiquei te dando a mão. até que vc falou que queria ir sozinha, que vc conseguia, e eu falei que eu tinha medo. tentei pegar sua mão de novo, e vc não deixou. "eu consigo, mamãe." e foi. concentrada, com seu passo pequeno e tão confiante, determinada como vc sempre é. eu fui logo atrás, segurando a respiração e repetindo como um mantra que preciso confiar nos seus passos. vc atravessou, ficou feliz e orgulhosa, e eu também. o coração acelerado, pensando "e se...". mas confiando. assim vai ser, filha, por todo o tempo: eu aprendendo a confiar nos seus passos, nas suas escolhas. sabendo que às vezes vc vai cair e eu vou precisar ser forte pra te amparar. sabendo que muitas vezes vc vai me mostrar ser mto mais capaz do que eu julgo, me ensinando que meu papel é te encorajar e deixar ir. não achei que fosse ser difíci...

brinco

quando a clarice nasceu, optamos por não colocar brinco nela bebê; queríamos que ela pudesse escolher se quisesse colocar, e achamos que seria um sofrimento desnecessário numa bebezinha - sensação que só intensificou depois de muitos exames de sangue por causa de icterícia. já tem uns bons meses que ela pede pra colocar brinco e fazer furo na orelha, mas combinei que antes ela ia precisar parar de mamar, porque brinco era coisa de menina grande. durante o desmame não falei muito disso porque um dia ela mamoumamoumamou, terminou e falou "cabei o mamá, cadê meu binco?". mas pra mim era um marco que fazia sentido... e assim foi. hoje, nas vésperas de completar 3 anos, cheia de coragem e pomada na orelha, clarice ganhou seus brincos. ficou toda feliz e orgulhosa, rindo à toa no espelho e falando "nem doeu, foi só uma fomiguinha e passou!" valeu muito a pena esperar! 💗 [escrito em 12/05/2017]